Mergulho em caverna

Acidente nas Maldivas: por que mergulhadores experientes morreram numa caverna

Mergulhador entrando na água com configuração de cilindros duplos para mergulho técnico

O essencial, em 4 pontos

  • Em maio de 2026, cinco mergulhadores experientes morreram numa caverna submersa nas Maldivas. Depois, um militar morreu no resgate. Seis vidas a partir de um único mergulho.
  • Eles cruzaram dois limites de uma vez, e não tinham treinamento para nenhum: a profundidade (a caverna começa a 55 metros, já em zona de mergulho técnico) e o ambiente de teto da caverna.
  • A 55 metros respirando ar comum, a narcose embota a mente. Dentro da caverna, não existe subir. Mergulho profundo e mergulho em caverna são duas especializações técnicas, cada uma com curso, equipamento e planejamento próprios.
  • Feito com curso, equipe e protocolo, esse tipo de mergulho é metódico e controlado. O perigo nunca foi a profundidade nem a caverna. Foi entrar nelas sem preparo.

Em 14 de maio de 2026, cinco pessoas entraram numa caverna submersa nas Maldivas. Nenhuma voltou.

E não eram amadores. Tinha uma professora de ecologia marinha com mais de 500 mergulhos nas costas. Dois biólogos. Uma pesquisadora. E um instrutor de mergulho, gente que vive disso, que ganha a vida embaixo d’água. Gente do mar.

Mesmo assim, ficaram lá dentro. Quatro deles foram achados dias depois, juntos, no fundo de um corredor que não levava a lugar nenhum, a uns 60 metros de profundidade. O quinto, o instrutor, apareceu logo no primeiro dia. E aqui vem a parte que quase ninguém comenta: quando a equipe militar entrou para buscar os corpos, mais um homem morreu. O sargento Mohamed Mahudhee, 43 anos, mergulhador das forças armadas das Maldivas.

6vidas perdidas a partir de um único mergulho. Cinco dentro da caverna, uma tentando trazer as outras de volta.

Você provavelmente já viu isso nas manchetes. Mas manchete não explica a única coisa que de verdade interessa para quem mergulha: se eles eram tão bons, como foram morrer ali dentro? E o que, exatamente, você tem de diferente deles?

Vou ser direto com você, porque esse assunto é a minha vida. Sou instrutor de mergulho em caverna e de trimix, e já mergulhei abaixo dos 100 metros de profundidade. Há mais de quinze anos eu formo mergulhadores e exploro cavernas e ambientes profundos. Nesse tempo todo, aprendi de perto o respeito que esse ambiente exige de quem entra. Quando li sobre as Maldivas, não me surpreendi. Doeu, mas não me surpreendeu.

Porque esse acidente seguiu um roteiro que qualquer instrutor de caverna reconhece de olhos fechados. E é esse roteiro que eu vou te mostrar aqui, passo a passo. Não para julgar quem já se foi: para que você nunca entre nele.

O que aconteceu, de verdade, nas Maldivas

Mapa do atol de Vaavu, nas Ilhas Maldivas, no Oceano Índico, onde fica a caverna Devana Kandu
O atol de Vaavu, no Oceano Índico. A caverna Devana Kandu fica perto da ilha de Alimathaa.

A caverna se chama Devana Kandu e fica perto da ilha de Alimathaa. Esquece aquela imagem de gruta rasa, água azulzinha, sol entrando bonito. A entrada dela começa lá embaixo, entre 55 e 58 metros. Ou seja: só para chegar à porta da caverna, você já passou bem longe do limite recreativo. É mergulho sério só para tocar a campainha.

O grupo entrou e foi fundo. Mais de 100 metros para dentro da pedra, atravessando uma sequência de salões ligados por corredores apertados. Entraram, exploraram e, em algum momento, deram meia-volta para sair.

Foi na saída que o mundo desabou. E aqui eu não preciso de teoria de jornal: quem é de caverna olha um caso desses e já sabe onde mirar. As equipes finlandesas que recuperaram os corpos confirmaram a leitura: na hora de sair, o grupo errou o corredor. A gente tem até um nome para isso, a “ilusão da parede de areia”. Você mexe no fundo, levanta uma nuvem de sedimento, e de repente um beco sem saída fica com a cara do caminho de casa. A passagem certa some atrás da poeira.

0 m20 m40 m55 m60 mEntrada a 55 ma única saída de toda a cavernaCâmaras internaspenetração de mais de 100 m na rochaTeto de rocha sólida: não existe rota de subidaCorredor sem saída (~60 m)onde os corpos foram encontradosA bifurcação que enganou na saídaCAVERNA DEVANA KANDUAtol de Vaavu, Maldivas
Rota de entrada Saída correta A curva fatal
Ilustração esquemática da caverna Devana Kandu, baseada em relatos da imprensa e das equipes de resgate. Não é um levantamento topográfico oficial, e sim uma reconstrução para fins didáticos.

Eles nadaram para dentro do corredor errado. Quando se deram conta, já era tarde. Pelo que eu conheço de consumo de ar a essa profundidade, quando perceberam o erro deviam ter poucos minutos de gás. E poucos minutos, dentro de uma caverna a 60 metros, não é quase nada: é nada. Dá uma olhada no croqui ali em cima. Aquela linha vermelha? É a curva que custou cinco vidas.

No mar aberto, errar o caminho custa tempo. Dentro de uma caverna, errar o caminho custa a vida. E a diferença entre as duas coisas é só um teto de pedra.

Ainda havia mais coisa errada empilhada, e isso qualquer um da área enxerga de imediato. O grupo levava equipamento de mergulho recreativo comum: cilindro único de 12 litros, sem reserva, sem nada da configuração que um mergulho daquele exigia. E as autoridades das Maldivas ainda investigam se o grupo desceu mais fundo do que o autorizado. Guarda esses dois detalhes, o equipamento e a profundidade. Eu já volto a eles, porque são o centro de tudo.

A caverna cobra até de quem vai salvar

Lembra do sargento Mahudhee, que eu citei lá no começo? Para um segundo nele, porque ele é a parte dessa história que quase ninguém conta.

Foram cinco mortes dentro da caverna. Já seria tragédia suficiente. Mas houve uma sexta. Mahudhee era mergulhador militar: treinado, forte, preparado. Ele entrou para fazer o que mergulhador de resgate faz, trazer os companheiros de volta, nem que fosse para um enterro decente. Morreu de doença descompressiva no meio da operação. A mesma caverna que matou cinco pessoas matou também quem foi atrás delas.

Sargento Mohamed Mahudhee, mergulhador militar da Força de Defesa das Maldivas
O sargento Mohamed Mahudhee, mergulhador da Força de Defesa das Maldivas. Morreu de doença descompressiva durante a operação de resgate: a sexta vida levada pela caverna.

Se você acompanhou o resgate dos meninos na caverna de Tham Luang, na Tailândia, em 2018, isso vai soar familiar. Aquela história até terminou bem: os doze garotos e o técnico saíram vivos, o mundo inteiro chorou de alívio. Mas houve um morto ali também. Saman Kunan, ex-militar da marinha tailandesa, mergulhador voluntário, perdeu a consciência embaixo d’água levando cilindros de ar para a equipe. Não voltou. Viraram herói nacional, depois.

Oito anos separam um caso do outro. Um oceano inteiro separa um do outro. E a lição é exatamente a mesma: a caverna não quer saber se você entrou por imprudência ou por coragem. Ela cobra de todo mundo igual. É por isso que resgate em caverna é uma das operações mais perigosas que existem no mergulho. E é por isso que, no nosso trabalho, prevenção não é firula. É o esporte inteiro.

Eles eram experientes. Então por que morreram?

Agora a parte que incomoda de verdade. Lê com calma, sem pressa.

Aquele grupo não era um bando de aventureiro maluco. A líder tinha mais de 500 mergulhos e cerca de vinte anos de mergulho científico nas costas. Os biólogos trabalhavam dentro d’água, era o escritório deles. E havia um instrutor de mergulho no meio, um profissional que ganhava a vida ensinando os outros a mergulhar.

Os cinco mergulhadores italianos que morreram na caverna submersa Devana Kandu, nas Maldivas
Os cinco mergulhadores italianos. Gente experiente e apaixonada pelo mar. Faltava a todos a mesma coisa: treinamento técnico, de profundidade e de caverna.

Lê essa frase de novo, devagar: um instrutor morreu lá dentro.

Isso quebra na cara a ilusão mais comum, e mais perigosa, de quem mergulha: a ideia de que “experiência” é uma coisa só. Como se fosse um placar que vai subindo a cada mergulho e que, depois de um tanto de pontos, te libera para qualquer coisa. Não funciona assim. E olha: as investigações não acharam nenhum indício de que algum dos cinco tivesse curso de mergulho em caverna. Nenhum.

Eu vejo essa confusão toda semana. Mergulhador de currículo bonito que me procura achando que caverna é só “descer com mais cuidado”. Quando eu sento e explico o que de fato muda, a ficha cai, e quase sempre vem a mesma frase: “eu não fazia ideia”. Pois é. E é exatamente aqui que mora o coração deste texto.

Mergulho científico, mergulho recreativo e mergulho em caverna parecem a mesma coisa, porque os três acontecem embaixo d’água. Mas, em treinamento, são tão diferentes quanto levar o carro até a padaria e correr na Fórmula 1. Os dois têm volante, certo. Ninguém em sã consciência acha que são a mesma atividade.

Dá para ter 500 mergulhos e zero preparo para o que eles foram fazer

Quinhentos mergulhos em recife, naufrágio e trabalho científico montam um currículo de respeito e deixam o mergulhador muito bom no que ele faz. Mas nenhum deles ensina as duas coisas que aquele mergulho exigia: descer com segurança muito além do limite recreativo e se virar num lugar de onde não dá para subir. Essas competências não grudam sozinhas com o tempo. Ou o mergulhador senta num curso e aprende, com instrutor, no seco e na água, ou ele simplesmente não tem. Não existe meio-termo.

Falta de treinamento para o quê, exatamente? Para duas coisas. E elas vieram empilhadas no mesmo mergulho. Vamos uma de cada vez, na ordem em que o perigo aparece.

O primeiro erro nem foi a caverna. Foi a profundidade.

Repara num detalhe que quase todo mundo deixa passar: a entrada da Devana Kandu fica entre 55 e 58 metros. Esquece a caverna por um minuto. Só descer até ali, em mar aberto, já é um mergulho para o qual a esmagadora maioria dos mergulhadores no mundo não tem treinamento.

O limite do mergulho recreativo é 40 metros, e olhe lá. Nas Maldivas, as operadoras seguram o turista em 30. A caverna começa em quase o dobro disso. Ou seja: antes de chegar perto de qualquer pedra, o grupo já estava 15, 20 metros abaixo de qualquer limite recreativo. Isso, sozinho, sem caverna nenhuma, já é mergulho técnico. Já é outra liga.

E aqui eu falo com conhecimento de causa. Além de caverna, eu sou instrutor de trimix e já passei dos 100 metros de profundidade. É justamente por isso que eu posso te dizer, sem nenhum drama: a 55 metros respirando ar comprimido, a sua cabeça mente para você.

Tem nome técnico, narcose por nitrogênio. Na prática, é como mergulhar levemente bêbado, e quanto mais fundo, mais “bêbado” você fica. O raciocínio fica lento, a noção de tempo escorrega, uma decisão simples vira um esforço enorme. E a narcose é só metade do problema. A outra metade tem a ver com o gás que, ironicamente, mantém você vivo.

O que os especialistas mais debateram sobre o caso

A intoxicação por oxigênio: como a PpO2 se torna perigosa

Parece uma contradição: o oxigênio é o gás que mantém você vivo. Mas, sob pressão, a pressão parcial de oxigênio (PpO2) sobe além dos limites fisiológicos seguros. E essa foi uma das principais causas levantadas pelos especialistas para explicar o que aconteceu na Devana Kandu.

Funciona assim: quanto mais fundo você desce, maior a pressão, e maior a “dose” de oxigênio que entra no seu corpo a cada respiração. Numa PpO2 acima de 1.6, o sistema nervoso central entra em pane. O nome é toxicidade do oxigênio, e ela se manifesta da forma mais brutal possível: uma convulsão, quase sempre sem nenhum aviso.

Respirando ar comprimido comum, a PpO2 segura fica em torno de 1.4. A 55 metros de profundidade, você ultrapassa esse limite e entra em zona de contingência (até 1.6). Praticamente a profundidade da entrada da caverna. Uma convulsão em terra firme já é grave. Embaixo d’água, ela faz o regulador sair da boca. A 55 metros, dentro de uma caverna, isso não é um susto: é ponto final.

O oxigênio tem um limite. No curso de Nitrox você aprende a enxergá-lo.

Antes de pensar em ir fundo, todo mergulhador precisa entender o que respira. O curso de Nitrox da Atlantes ensina a calcular a pressão parcial de oxigênio e a profundidade máxima de cada mistura. É o primeiro passo para nunca ser pego de surpresa lá embaixo.

É exatamente por isso que o mergulhador técnico não respira ar lá embaixo. Ele respira trimix, uma mistura com hélio que tira parte do nitrogênio e devolve a clareza mental. Não é luxo: é o que mantém a cabeça funcionando onde ela mais precisa funcionar. E olha o detalhe que conta a história toda sozinho: no barco daquele grupo não havia trimix disponível. Nenhum. Aquele mergulho nunca foi planejado como o mergulho técnico que ele, na verdade, era.

E ainda tem um terceiro teto, esse invisível. A 55 metros, depois de poucos minutos, você não pode mais simplesmente subir. Você passa a “dever” descompressão: paradas obrigatórias na subida, para o corpo eliminar o gás com segurança. Ignorar isso é doença descompressiva, às vezes a morte. Foi exatamente o que matou o sargento Mahudhee durante o resgate.

Então soma tudo. Num único mergulho, aquele grupo cruzou três fronteiras, e cada uma exige a sua própria formação: a profundidade técnica, a obrigação de descompressão e, ainda por cima, o teto de rocha da caverna. Levavam treinamento e equipamento recreativos para um mergulho que não tinha nada de recreativo. O mergulho técnico e profundo é uma formação inteira, separada, tão séria quanto a de caverna. E nenhuma das duas se improvisa no dia.

Caverna não é mergulho fundo. É outro esporte

Mergulho profundo, com o treinamento certo, muita gente faz. Mas aquele grupo não parou na profundidade. Eles entraram. E é aqui que mora o coração do acidente, numa palavra só: teto.

No mergulho recreativo, deu algum problema? Você tem uma saída de emergência tão simples que chega a ser mágica: a superfície está logo ali em cima. Acabou o ar, bateu o pânico, o equipamento falhou? Você sobe. Pode ser feio, pode doer o ouvido, mas existe um caminho para cima e ele está sempre lá, te esperando.

Na caverna, esse caminho não existe. Em cima da sua cabeça tem pedra. Pedra maciça. A única saída é para o lado, e ela fica do outro lado de corredores que você vai ter que reencontrar, talvez no escuro, talvez com a água tomada de sedimento, talvez com o cilindro acabando. Olha o croqui de novo: aquela linha pontilhada clara marcando o teto vai de ponta a ponta da caverna. Não há uma fresta sequer para cima.

Caverna submersa com câmaras internas ligadas por passagens estreitas, um mergulhador iluminado por feixes de luz
As câmaras internas de uma caverna: cada passagem precisa ser reencontrada na volta. E, em cima, sempre, o teto de rocha.

Quando você entende isso, percebe na hora por que caverna é tratada como uma modalidade à parte, com curso próprio, equipamento próprio e um jeito próprio de pensar. Não é frescura nem arrogância da turma do mergulho técnico. É só a conta certa de um ambiente que não perdoa improviso.

O que separa olhar de longe e entrar de verdade tem um nome: treino.

A gente forma mergulhador para ambiente de teto com o cuidado que a caverna exige. Começa com uma conversa, sem compromisso nenhum.

A boa notícia: caverna pode ser muito segura

Agora respira, porque o texto vira aqui. Seria fácil ler até este ponto e concluir “entendi, caverna é coisa de doido, ninguém deveria fazer isso”. E isso seria tão errado quanto perigoso.

Mergulho em caverna, feito por quem tem curso, equipe e protocolo, é uma das formas mais metódicas e controladas de mergulho que existem. Parece contradição, eu sei. Mas não é. É justamente porque o ambiente não perdoa que a comunidade de caverna passou décadas construindo um conjunto de regras tão redondo que transforma o “impossível” em rotina.

O acidente das Maldivas não aconteceu porque caverna não dá para fazer com segurança. Aconteceu porque, por tudo que se sabe, quase nenhuma dessas regras estava na mesa. Deixa eu te mostrar o que um treinamento de verdade coloca no jogo. É o que eu ensino, na ordem em que ensino.

1. A linha-guia: o caminho de casa nunca fica para trás

Tem um mito que eu desfaço logo na primeira aula: o de que o mergulhador de caverna vai “desenrolando um fio” improvisado conforme avança. Não é assim. Uma caverna que já é mergulhada tem uma linha-guia permanente instalada, fixada ponto a ponto desde a água aberta, do lado de fora, até o interior. Foi quem explorou aquela caverna pela primeira vez que deixou essa linha ali, para sempre. É a linha principal, a espinha dorsal de todo mergulho naquele lugar, o que o pessoal chama de Golden Line.

E a regra a partir daí é sagrada: um mergulhador de caverna nunca está lá dentro sem um cabo ligando ele à saída. Ou ele segue a linha principal, ou, para ir dela até outro trecho da caverna, amarra o próprio carretel nessa linha permanente e só então avança, sempre conectado. Esse desvio tem nome: jump. É a linha que transforma o labirinto em algo navegável. Enquanto você tem contato com ela, você tem o caminho de casa, no escuro, em pânico, tanto faz. O grupo das Maldivas, pelo equipamento que levava, não operava com nada disso. E aquela “parede de areia” que enganou todos eles só engana quem está sem linha.

2. A regra dos terços: você dá meia-volta com o tanque quase cheio

Na caverna, o ar se divide em três. Um terço para entrar. Um terço para voltar. E um terço inteiro guardado, intocado, só para emergência. Você vira para trás quando ainda tem dois terços do cilindro. Parece exagero, até você lembrar que ficar sem ar dentro de uma caverna não tem plano B.

3. Tudo que é crítico tem um irmão gêmeo

Dois cilindros, dois reguladores, no mínimo três lanternas. Em ambiente de teto, nada essencial pode ter um ponto único de falha. Aqui na Atlantes a gente trabalha em sidemount: os cilindros vão presos nas laterais do corpo, não nas costas. Cada um fica totalmente independente, você enxerga e controla as suas válvulas o tempo todo e, numa passagem estreita, dá até para soltar um cilindro e levá-lo à frente para passar. Cilindro único, recreativo, não é um descuido pequeno lá dentro. É o tipo de detalhe que decide quem sai e quem fica.

4. Você já viveu o pesadelo antes, no treino

Perder o fio-guia. Perder a visibilidade. Perder a equipe de vista. Dividir ar numa passagem apertada. No curso, eu faço o aluno viver cada um desses pesadelos vezes e vezes, num ambiente controlado, até a resposta virar reflexo. Aí, quando o problema aparece de verdade, o corpo já sabe o que fazer. E o pânico, que já levou tanta gente boa embaixo d’água, perde a força diante de um reflexo treinado.

Em mais de quinze anos explorando cavernas e formando mergulhadores, a frase que mais me arrepia não é um pedido de socorro. É um sujeito dizendo, todo tranquilo: “relaxa, eu já fiz isso antes”.

Quando a experiência se vira contra você

Existe um fenômeno que a gente, que trabalha com segurança no mergulho, chama de “normalização do desvio”. Funciona assim: você faz uma coisinha fora do padrão, e dá certo. Faz de novo, dá certo de novo. Aos poucos, o que era exceção vira rotina, e a rotina vira a sua nova noção de normal. Cada mergulho que termina bem reforça a sensação de que está tudo sob controle. Até o dia em que não está.

E aqui vem o paradoxo cruel, que eu já vi engolir mergulhador excelente: o experiente é o mais fácil de cair nessa. O iniciante tem medo, e o medo segura ele dentro do limite. O veterano já viu de tudo, já se safou de um monte de aperto, e essa coleção de finais felizes vai inflando uma confiança que, num ambiente de teto, pode matar. A linha que separa o mergulhador recreativo competente do mergulhador de caverna é invisível. Ninguém sente, no meio do mergulho, a hora exata em que cruzou da zona segura para a zona que exigia um treinamento que ele não tinha.

Por isso o recado deste texto não é “não façam caverna”. É o contrário. Caverna submersa está entre os lugares mais extraordinários que um ser humano pode visitar: catedral de pedra, água de uma transparência que não parece real, formações que levaram milhares de anos para existir e que pouquíssima gente vai ver de perto. Vale muito a pena. O que não vale a pena é entrar sem a chave certa. E a chave tem nome: treinamento.

O grupo das Maldivas tinha quase tudo. Experiência, amor pelo mar, conhecimento, até um instrutor no time. Faltou exatamente a única coisa que a caverna cobra. E a caverna, que não negocia com ninguém, cobrou o preço cheio.

Se a tragédia das Maldivas mexeu com você e acendeu aquela vontade de entender melhor esse mundo, faz uma coisa: transforma essa vontade no caminho certo. Procura formação séria. Começa conversando com quem faz isso há décadas e respeita a caverna o suficiente para nunca tratá-la como um mergulho qualquer. Dá uma olhada também nos pontos de mergulho de Guarapari, que costuma ser por onde uma formação de verdade começa.

Perguntas frequentes sobre mergulho em caverna e profundidade

O que aconteceu com os mergulhadores nas Maldivas?
Em 14 de maio de 2026, cinco mergulhadores italianos entraram na caverna submersa Devana Kandu, no atol de Vaavu, e não retornaram. Quatro foram encontrados num corredor sem saída a cerca de 60 metros de profundidade. Um militar das Maldivas também morreu, de doença descompressiva, durante a operação de recuperação dos corpos. As investigações apontam falta de equipamento e treinamento específicos de caverna, além de profundidade acima do limite autorizado.
Mergulho em caverna é perigoso?
Sem treinamento, é extremamente perigoso, porque a caverna é um ambiente de teto: não existe a opção de subir para a superfície em caso de emergência. Com curso específico, equipamento redundante, fio-guia e planejamento de gás, o mergulho em caverna se torna uma atividade metódica e gerenciável. O risco não está na caverna em si, e sim em entrar nela sem preparo.
É perigoso mergulhar a 50 metros de profundidade?
Sim. O limite do mergulho recreativo é 40 metros, e a maioria das operadoras trabalha bem abaixo disso. A partir de cerca de 40 metros, respirar ar comprimido provoca narcose por nitrogênio, que compromete o raciocínio, e aumenta o risco de toxicidade por oxigênio. Mergulhar a 50 ou 55 metros com segurança exige formação em mergulho técnico, uso de misturas como o trimix e planejamento de descompressão. Não é uma extensão do mergulho recreativo: é outra modalidade.
O que é toxicidade por oxigênio no mergulho?
É quando o oxigênio, sob pressão, torna a pressão parcial de oxigênio (PpO2) tóxica para o sistema nervoso central. Quanto mais fundo o mergulhador desce, maior a pressão parcial de oxigênio que ele respira. Acima de um certo limite, o risco é uma convulsão súbita, quase sempre sem aviso, que embaixo d’água costuma ser fatal. Respirando ar comprimido comum, esse limite começa a ser cruzado por volta dos 56 metros. É uma das causas mais discutidas para o acidente das Maldivas, e um dos motivos pelos quais o mergulho técnico exige formação específica em gases, como o curso de Nitrox.
Preciso de curso para mergulhar em caverna?
Sim, e não é opcional. O mergulho em caverna é uma modalidade técnica com certificação própria. Nenhuma quantidade de mergulhos recreativos substitui o treinamento de caverna, porque as habilidades exigidas (uso de fio-guia, regra dos terços, gestão de visibilidade zero, redundância de equipamento) só se aprendem num curso estruturado, com instrutor habilitado.
Um instrutor de mergulho pode entrar em caverna sem treinamento de caverna?
Não, e o acidente das Maldivas mostrou isso da forma mais dura: havia um instrutor de mergulho entre as vítimas. A qualificação de instrutor recreativo não habilita ninguém para ambiente de teto. A caverna exige certificação específica, independentemente do nível que o mergulhador tenha no mergulho recreativo.
Qual a diferença entre mergulho recreativo e mergulho em caverna?
No mergulho recreativo, a superfície está sempre acessível acima do mergulhador, funcionando como saída de emergência. No mergulho em caverna, há rocha sólida acima da cabeça durante todo o percurso, e a única saída é horizontal. Isso muda o equipamento (redundante), o planejamento de gás (regra dos terços), a navegação (fio-guia obrigatório) e o treinamento, que passa a ser uma especialização técnica à parte.
Onde fazer curso de mergulho em caverna?
Procure uma operadora com instrutor habilitado em mergulho técnico e em ambiente de teto, com histórico real de exploração e cultura de segurança consolidada. A Atlantes, em Guarapari, atua com mergulho desde 1993 e forma mergulhadores para ambiente de teto com método, equipamento e acompanhamento adequados. O primeiro passo é uma conversa para avaliar o seu nível atual e o caminho de formação.
BF
Bruno Felipetto
Instrutor de mergulho em caverna, sidemount e trimix. Fundador da 200bar Mergulho e proprietário da Atlantes Viagens e Mergulho, em Guarapari (operação desde 1993).
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