No dia 8 de junho de 2026, no Dia Mundial dos Oceanos, um grupo de mergulhadores divulgou um vídeo que correu o mundo. Pela primeira vez alguém filmou um tubarão-branco adulto nadando no Mediterrâneo. Virou manchete em todo canto. E quase toda vez que aparece uma notícia dessas, quem está pensando em mergulhar pela primeira vez faz a mesma pergunta: e aqui, será que tem tubarão?
Em Guarapari, a chance de você esbarrar num tubarão perigoso durante o mergulho é pequena. O Espírito Santo inteiro não tem um único registro oficial de ataque de tubarão a uma pessoa. Nenhum, em toda a história do estado.
ataques de tubarão a pessoas com registro oficial na história do Espírito Santo.
Eu vivo disso. A Atlantes trabalha com mergulho em Guarapari desde 1993, e nesse tempo eu já levei para a água milhares de pessoas, muita gente fazendo o primeiro mergulho da vida. Eu mesmo já deitei no fundo do mar, de boa, no meio de um cardume de tubarões. A foto que abre o texto é isso, sem montagem. Foi em Revillagigedo, no Pacífico mexicano, um dos melhores lugares do planeta para mergulhar com tubarão, e não em Guarapari. Daqui a pouco eu volto nessa diferença, porque ela importa.
Aqui em casa é mais tranquilo ainda. O que as pessoas encontram nos nossos pontos é cardume de xareu fechando o azul, polvo trocando de cor na toca, peixe-anjo-rainha no costão, vez ou outra uma raia passando rente ao fundo. Não tem nada ali para ter medo.
Mas eu sei que o medo é real, e ele merece uma resposta de verdade, com número e com biologia. Vou explicar com calma.
O tubarão-branco do Mediterrâneo: por que virou notícia
Vale entender por que aquele vídeo foi parar em todo lugar. Não foi ataque nenhum, foi uma raridade científica. Uma equipe de mergulhadores técnicos estava tirando redes de pesca abandonadas de um naufrágio no Estreito da Sicília, aquelas redes fantasma que ficam matando bicho marinho por décadas, e o tubarão-branco apareceu no meio do trabalho. Foi a primeira vez que filmaram um adulto da espécie no Mediterrâneo.
Olha o cenário onde isso aconteceu: outro continente, mar aberto, profundidade de trabalho, mergulhadores técnicos fazendo conservação. Não tem nada parecido com um batismo em Guarapari, num passeio de barco de um dia, com instrutor do seu lado o tempo todo. Ninguém ali estava em perigo. O que chamou atenção foi a sorte de ver o bicho de perto.
Tem tubarão em Guarapari?
A resposta honesta é que existem tubarões na costa do Espírito Santo, como existem em quase todo litoral do mundo. Um levantamento já encontrou cerca de 12 espécies por aqui. Só que ter tubarão na costa é bem diferente de ter perigo no seu mergulho. As espécies que de fato chegam perto da praia costumam ser pequenas, de uns 50 centímetros a 1 metro, comem bicho miúdo e não têm o menor interesse em gente.
Nos pontos onde a gente mergulha, o tubarão que mais aparece é o cação-viola, e ele nem é tubarão de verdade, é parente das raias. Vive achatado no fundo de areia e foge de qualquer movimento. Fora ele, o que tem são as raias, a raia-prego, a raia-chita, de vez em quando uma raia-manta de passagem.
Tubarão de verdade, dos maiores, é raro por aqui, mas não é zero. Uma vez, num mergulho em Guarapari, a gente cruzou com um tubarão-lixa, que é um tubarão de fundo, calmo, daqueles que ficam parados embaixo de uma pedra. A gente filmou, e até hoje é um dos mergulhos mais marcantes que tive na cidade.
E aqui eu vou ser sincero, mesmo que soe estranho vindo de um instrutor: a gente até gostaria que aparecesse mais. Mergulhar com tubarão é um dos melhores programas que existem, e eu viajo o mundo atrás disso. Foi assim que fui parar em Revillagigedo, naquela foto lá de cima. Em Guarapari é raro, e para quem mergulha isso é mais uma pena do que um alívio. Quando aparece um, é festa no barco.
Em qualquer encontro desses, a regra é a mesma e vale para tudo que é vivo lá embaixo: não toca, não persegue, deixa quieto. Você olha e ele segue a vida.
Então tubarão ataca mergulhador?
Tem uma coisa que quase ninguém comenta. Mergulhador praticamente não entra na conta dos ataques. Nos pouquíssimos casos que acontecem, a pessoa quase sempre está na superfície. Surfista e banhista se mexem, batem perna, espirram água, e visto de baixo isso pode lembrar um animal em apuros para um tubarão curioso, que enxerga mal. O mergulhador faz o contrário. Fica embaixo, respirando devagar, soltando bolha, parado na paisagem. Não lembra presa nenhuma.
Os números ajudam a botar o medo no lugar. No Brasil inteiro, de 1931 até hoje, são 89 ataques espontâneos registrados. No mundo todo dificilmente passa de 100 por ano, contra bilhões de banhos de mar. E a maior parte dos casos brasileiros se concentra na região de Recife, por motivos específicos daquele pedaço de litoral que não têm nada a ver com Guarapari.
Comparando com o que assusta de verdade
Você corre muito mais risco no trânsito, indo para a praia, do que dentro d’água por causa de tubarão. O mergulho recreativo com acompanhamento é uma das formas mais controladas de estar no mar. Equipamento conferido, instrutor do lado, profundidade limitada e conversa antes de descer. O perigo do filme fica no filme.
O medo que o cinema vendeu x o risco real
Botando lado a lado o que a gente sente e o que os dados mostram, a diferença fica clara.
| O que o medo diz | O que os números dizem |
|---|---|
| Tubarão caça gente | Menos de 100 ataques por ano no mundo inteiro, contra bilhões de banhistas |
| Toda praia esconde um perigo | Espírito Santo: 0 registro oficial de ataque na história |
| Mergulhar é se oferecer de isca | Mergulhadores quase nunca são alvo; os raros casos são na superfície |
| Se aparecer, é tragédia certa | Brasil: 89 casos somando quase um século (1931 a hoje) |
| Os de Guarapari são perigosos | As espécies costeiras comuns têm cerca de 1 metro e comem bicho miúdo |
De onde vem todo esse medo
Se os números são esses, por que a gente gela só de pensar? Por causa do cinema. Em 1974 saiu o livro Jaws, do Peter Benchley, e em 1975 o filme Tubarão, do Spielberg, pegou o bicho e transformou no vilão do oceano. Uma trilha de duas notas e uma barbatana cortando a água assombraram gerações. Só que aquilo era ficção, feita para dar medo, não para retratar a realidade.
E a gente paga essa conta até hoje. O tubarão é um dos animais mais importantes e mais ameaçados do mar, e o pânico que herdamos do cinema acaba atrapalhando mais a proteção dele do que ajudando alguém. Quem mergulha aprende isso rápido.
Eu já sentei para falar disso num podcast, e o nome que ficou diz tudo: Hollywood te enganou a vida inteira sobre tubarões. Nesse papo eu conto a verdadeira causa por trás dos poucos incidentes no Brasil, como os de Recife, e o culpado talvez não seja quem você imagina. Se quiser ouvir, o trecho está aqui.
No batismo da Atlantes você conhece o mar de Guarapari com um instrutor junto de você o tempo todo, sem precisar saber nadar e sem nenhuma experiência. É o caminho mais seguro de ver tudo isso com os próprios olhos.
Como é mergulhar em Guarapari de verdade
Guarapari é chamada de Capital Nacional da Biodiversidade Marinha, e isso não é conversa de folheto. São centenas de espécies catalogadas nos costões e cabeços da região. No mergulho, o que costuma chamar mais atenção é o cardume de xareu girando no azul, o dentão vermelho, o polvo trocando de cor, o peixe-anjo-rainha, a garoupa parada vigiando o vão de uma pedra. Em alguns dias aparece uma tartaruga ou um golfinho, mas isso é sorte do dia, nunca promessa.
E nada disso é no improviso. Antes de descer tem conversa, equipamento conferido, profundidade dentro do limite e instrutor acompanhando cada passo. O mar de Guarapari não é para ter medo, é para conhecer com calma, e quem te apresenta a ele há mais de 30 anos é a gente.