Oi! Aqui é a Karine, bióloga da Atlantes. 🐋 Semana passada um vídeo tomou conta da internet: uma baleia em Garopaba lá em Santa Catarina, deslizando na superfície de boca toda aberta. A legenda era a mesma em todo canto, “baleia bocejando”, e teve gente até perguntando meio assustada se aquela boca toda engole uma pessoa. Aí eu vi e já vim te escrever porque tem muita coisa boa pra contar e quase tudo que tá rolando por aí tá meio trocado.
Vou logo adiantando: ela não tava bocejando, tava almoçando. E aquela boca aberta entrega justo o que mais confunde quem olha esses gigantes de longe, baleia não tem dente. A de Garopaba é a baleia franca. A que passa todo ano aqui na nossa frente em Guarapari, e que eu acompanho de pertinho na temporada, é a jubarte. Prima dela, do mesmo time das baleias sem dente. Então vem comigo que eu te conto o que é real e o que é história de filme.
Então não foi bocejo? Foi o quê?
Não foi bocejo, foi comida. Quando a franca abre a boca e desliza assim devagarzinho na superfície ela tá filtrando a água atrás do que dá pra comer ali. A gente na biologia chama isso de arrasto, porque parece uma rede sendo puxada rente à água. Entra água pela frente, escapa pelos lados, e o que é comida fica preso.
Preso onde? Nas barbas. E é aqui que muita gente se enrola, porque aquela foto da baleia “bocejando” não tá mostrando dente. Tá mostrando uma cortina de cerda. Para um segundinho nesse detalhe que é ele que explica todo o resto.
Afinal, baleia tem dente?
Gente, não tem. Nem a franca, nem a nossa jubarte têm um dente sequer. No lugar dos dentes ela tem tipo umas barbas, que a gente também chama de cerdas. São umas placas compridinhas, meio fibrosas, que ficam meio penduradinhas assim na parte de cima da boca dela. Ah, sei lá, parece as cerdas de uma vassoura, tipo isso.
Agora, ela comendo é uma gracinha: a baleia abre a boca, engole um caminhão de água, depois fecha e usa a língua pra empurrar tudo de volta lá pra fora. Aí a água escapa pelos vãozinhos da barba, e é aqui que a comida fica presa, igual numa peneirinha assim. Olha, eu trabalhei monitorando a vida marinha no AquaRio antes de vir pra cá, tubarão de tanque e tudo, então pode confiar: dente ali não tem. Por isso o grupo delas tem até nome, são as baleias de barbas (os misticetos), diferentes das que têm dente de verdade, tipo a orca e o cachalote.
Calma: a baleia pode engolir uma pessoa?
Não, pode ficar tranquilo. É impossível mesmo. A boca da jubarte é gigante, cabe um carro popular lá dentro, mas a garganta dela é estreitinha: o esôfago abre no máximo uns 40 centímetros, mais ou menos um punho fechado. Não passa uma pessoa por ali nem se quisesse. Não tem como, é o corpo dela que não deixa.
“Ah, mas eu vi um vídeo de um mergulhador sendo engolido.” Você viu um mergulhador sendo abocanhado sem querer e cuspido uns segundos depois, que é bem diferente. Foi nos Estados Unidos, um pescador de lagosta que entrou bem na frente de uma jubarte que tava filtrando água. Ela sentiu o erro na hora e devolveu o homem pro mar. Você não é comida pra ela, viu? No fim foi um susto pros dois lados, e cá entre nós, acho que a baleia levou o maior.
É a mesma confusão do tubarão, que a gente já desmistificou aqui no blog. No filme o bicho vira monstro. Na água, de pertinho, é outra coisa, viu? Quem convive com eles aprende a olhar com respeito, não com medo.
O que a jubarte come (e por que ela quase não come aqui)
A jubarte come krill, que é um camaroezinho de nada, e peixinho de cardume, tipo sardinha e anchova. A franca puxa pra menor ainda: vive de copépode, uns bichinhos quase invisíveis. Tudo miúdo, filtrado às toneladas pela barba. Nada nem perto de um ser humano, viu? Pra ela você é grande demais e, sejamos sinceras, sem graça nenhuma de comer.
E tem uma coisa que quase ninguém sabe, que muda o jeito de ver o passeio: aqui na nossa costa a jubarte quase não come. Ela enche o bucho lá na Antártida no verão, e atravessa o oceano já com a despensa cheia vivendo da própria gordura. Vem pro nosso calorzinho pra namorar, ter os filhotes e amamentar, não pra almoçar. Então quando você vê ela saltando aqui em setembro não tá caçando nada. Tá cortejando, cuidando do bebê, ou só esticando o corpo mesmo. É social, sabe? Não é hora do almoço. 🐋
A de Santa Catarina é a mesma que aparece em Guarapari?
Não, são duas espécies diferentes. A de Garopaba é a baleia franca, a nossa de Guarapari é a jubarte. As duas vêm da Antártida pro Brasil pra reproduzir, as duas filtram comida pela barba, mas no olho dá pra diferenciar fácil:
| No mar você olha | Baleia franca (Santa Catarina) | Baleia jubarte (Guarapari, ES) |
|---|---|---|
| Nadadeira nas costas | Não tem barbatana dorsal | Tem uma barbatana dorsal baixa |
| Cabeça | Cheia de calosidades, umas casquinhas claras | Lisa, sem calosidades |
| Nadadeira do lado | Curta e larga | Comprida, quase uma asa (chega a um terço do corpo) |
| Comportamento | Mais calma, costuma chegar bem pertinho da praia | Acrobática, salta fora da água (o famoso breach) |
| Onde aparece | Litoral sul, a Rota da Baleia Franca em SC | Litoral do Espírito Santo, na frente de Guarapari |
Resumo de bolso: viu calosidade na cabeça e nada de barbatana nas costas, é franca. Viu uma nadadeira comprida que nem asa e um salto de gigante jogando água pra tudo quanto é lado, é a nossa jubarte. Pode confiar, é o que a gente vê de pertinho toda temporada saindo de Guarapari.
Quer ver a jubarte de pertinho? É aqui em Guarapari
A temporada da jubarte em Guarapari vai de julho a novembro, e o auge é entre agosto e setembro, quando tem mais bicho na área e um monte de filhote aprendendo a usar o corpo. O barco sai de Guarapari sempre com biólogo a bordo, e sempre que dá eu tô lá também. Então tomara que a gente se encontre na sua saída 💙. A observação é feita respeitando a distância e o tempo que as normas pedem, porque baleia sossegada é baleia que fica por perto.
Se você quiser entender a parte prática, de onde sai o barco, o que levar, como não enjoar e quanto custa, eu montei um guia completo da temporada 2026. E se já bateu a vontade de ver a jubarte e garantir o lugar, a página de observação de baleias tem tudo pra reservar. Ah, e quase todo mundo que vem pra Guarapari atrás da baleia acaba se apaixonando pelo resto do mar daqui. Muita gente aproveita a viagem e faz o batismo de mergulho, que é a primeira vez debaixo d’água, sem precisar saber nadar nem ter curso.
Perguntas frequentes
Baleia tem dente?
Não. As baleias jubarte e franca não têm dentes. No lugar deles têm barbas (ou cerdas), umas placas que funcionam como uma peneira pra filtrar a água e segurar o alimento. Só as baleias do grupo dos odontocetos, como a orca e o cachalote, têm dentes de verdade.
A baleia jubarte pode engolir uma pessoa?
Não, é anatomicamente impossível. A garganta da jubarte estica no máximo até uns 40 centímetros, o tamanho de um punho. Os casos raros de pessoas abocanhadas por engano terminaram com a baleia cuspindo o humano de volta em segundos.
O que a baleia jubarte come?
Krill (um camaroezinho) e peixes de cardume como sardinha e anchova. Mas ela se alimenta principalmente na Antártida. Aqui na costa do Brasil, durante a temporada reprodutiva, a jubarte quase não come e vive da gordura acumulada.
Qual a diferença entre a baleia franca e a baleia jubarte?
A franca não tem barbatana dorsal e tem calosidades na cabeça, e aparece mais no litoral de Santa Catarina. A jubarte tem nadadeiras peitorais compridas, é bem acrobática e salta fora da água, e aparece no litoral do Espírito Santo, na frente de Guarapari.
Quando dá pra ver baleia jubarte em Guarapari?
De julho a novembro, com o pico de avistamento entre agosto e setembro. A Atlantes faz as saídas de observação acompanhando essa janela, saindo de Guarapari, sempre com biólogo a bordo.
A baleia é perigosa pra quem está no barco?
Não, desde que a observação seja feita com responsabilidade, mantendo distância e sem perseguir o animal. A baleia não ataca pessoas; o cuidado existe pra não estressar o bicho, não porque ele ofereça risco a quem está observando.
